_CASA DE CRIADORES 45 - VERÃO 2020_

Por Ana Laura Seren e Rogério Galvão, 08/07/2019 as 19hs.
As fotos são da Agência FOTOSITE - Videos: youtube: Casa de Criadores

Ahlma:

A marca vegana Ahlma fez sua estréia na Casa de Criadores colocando em evidência o consumo consciente, a importância da arte e a preservação das roupas com o intuito de incentivar a sustentabilidade.

Mais do que criar desejo sobre cada peça desfilada, o objetivo da marca é fazer com que a cliente olhe para o seu próprio guarda-roupa com vontade de customizar, ressignificar, repensar, recortar e, se realmente precisar comprar algo, preferir o brechó. A Ahlma teve apoio da ASA, Associação Santo Agostinho, que doou as roupas que foram usadas nesta coleção.

O clima de otimismo é constante e vem dessa moda colorida e alegre, pela bandeira do arco-íris, que a marca utiliza desde que nasceu. Mas, mais do que os direitos LGBTQI+, ela representa a vontade de incluir todas as cores, gêneros, raças, corpos e orientações em uma mesma conversa.


Cisô:

Estreante do evento, a Cisô é a primeira marca que apresenta apenas lingeries na passarela da Casa de Criadores. No backstage, a estilista Maria Tereza Pasqua conta que, ao criar a campanha de sua nova coleção, uniu treze mulheres e sentiu a força que essa união feminina traz. “Eu até pensei em fazer alguns robes ou vestidos, mas decidi focar só na lingerie”, conta a dona da marca.

Essa decisão foi tomada para representar a força do corpo feminino usando uma lingerie poderosa, sensual, que coloca a mulher no poder de onde nunca deveria ter saído. As calcinhas e sutiãs eram em sua maioria pretos, com recortes em lurex ou em um bege transparente, além de detalhes geométricos.

Existe muita coragem em um desfile apenas de mulheres de lingerie. Ele representa a força do feminismo, da sensualidade da, auto-estima, de amar seu corpo, suas curvas e sua cor.




Diego Gama:

O estilista Diego Gama partiu do conceito que sempre aborda sem seus desfiles: o afeito. Na coleção, ele olha para como as minorias se unem e se protegem em momentos sociopolíticos como os que vivemos.

Na passarela, as peças foram feitas a base de veludo molhado estampas, blusas mais rígidas (trazendo a sensação de armadura) e plumas de silicone imitando algo que vem da natureza. Por ser vegano, o designer prefere reproduzir do que retirar. “Já que a realidade não está boa, a gente usa da fantasia para imaginar o novo”, ele conta.

São tempos difíceis para as minorias. No entanto, poucas marcas falam sobre a rede de apoio necessária nesses tempos. Diego foi um caso raro.



D-Aura:

Na química, a alotropia é “a propriedade que alguns elementos químicos têm de formar uma ou mais substâncias simples diferentes”.  Segundo Lucas Menezes, da D'Aura, é a ideia de se rearranjar e se recompor. O estilista começa explicando seu desfile assim, já que as peças apresentadas no primeiro dia de Casa de Criadores não são exatamente as mesmas de seu último desfile, no Dragão Fashion Brasil, mas uma continuação orgânica do que foi proposto.

Nesse novo momento de retorno à Casa de Criadores, a marca explora melhor seus alicerces, como as roupas arquitetônicas e a discussão de gênero na moda.

Camisas alongadas e drapeadas, macacões utilitários, blazers, blusas assimétricas e vestidos túnica compõem bem a coleção, toda em preto, branco e cinza. Em tempos em que o discurso às vezes ultrapassa os limites da roupa, faz bem ver uma roupa bem feita e bem pensada por si só na passarela.




Igor Dadona para Blaze Supply:

O relacionamento entre o Igor Dadona e a Blaze Supply começou quando a marca francesa procurou trazer um toque mais fashion às suas coleções de roupas de skate. A alfaiataria divertida das peças do estilista brasileiro casou perfeitamente com esse lifestyle, que visa o conforto e estilo.

A ideia é trazer a vivência da cultura francesa ao lado do lifestyle brasileiro e todos seus trejeitos, seus estilos e suas necessidades sob o olhar do estilista. A junção das marcas Igor Dadona e Blaze Supply teve o objetivo de tirar o estigma de marginalização do skate.

A elegância, que vem naturalmente no bom gosto de Igor, cai muito bem ao lado das camisetas de estampa localizada e das bermudas mais largas e compridas.

A mistura entre o chique e o esportivo vem de forma não forçada e a dualidade chega até aos acessórios, onde Igor propõe um suspensório que também pode ser usado como uma espécie de porta-skate nas costas.



Renata Buzzo:

A estilista vegana apresenta sua coleção, onde fala sobre redescobertas.

As crianças nascem puras, com personalidade esférica, e acabam abandonando suas convicções por causa das imposições da sociedade. Durante sua vida, sua adolescência e sua trajetória, acabam se tornando planas, caricatas, sem profundidade. É sobre essa narrativa que Renata Buzzo se debruça em sua nova coleção.

“Quando eu era criança, tinha um quadro de pierrot na casa da minha tia. Ele me assustava, mas eu acabei virando ele”, explica a estilista no backstage. Buzzo conta que perdeu seu caminho na adolescência, se tornando caricata, como um palhaço triste, o pierrot. As formas amplas e os dapreados que decoram as roupas refletem os caminhos errados que as pessoas precisam chegar para encontrar a si mesmos. Esse encontro, muitas vezes, é uma volta ao original, à infância.



Jorge Feitosa:

A coleção de Jorge Feitosa foi inspirada em seu pai, o que tornou o desfile emocionante. “Peguei um retrato do meu pai bem tradicional do Nordeste e usei várias referências do que ele gostava nas minhas estampas”, conta o pernambucano.

O desfile foi dividido em quatro blocos de cor: branco, rosé, azul marinho e preto. O branco e o preto falam dos contrastes de uma personalidade plural e sobre a imagem que tinha de seu pai. Os tons de rosa e azul remetem à relação um pouco conturbada que eles tinham. “Meu pai amava andar de bicicleta, era poeta, jogava damas e era muito místico”, lembra, elencando várias de suas preferências e gostos. “Mas acho que ele nunca me entendeu ou nunca nem tentou”.

Formas amplas e patchwork, marcas do DNA de Jorge, aparecem em abrigos, casacos com franjas, camisas com gola-laço, saias de renda e moletons de zíper.

Martins:

Muito antes de serem vistas como uma estampa comum, as listras se remetiam aos presos, prostitutas, doentes, loucos e até palhaços. No livro “O Pano do Diabo”, em que Tom Martins se inspirou para sua nova coleção, o autor Michel Pastoureau traça a história das listras até o século XX, quando foi transformada em estampa-fashion por Coco Chanel.

O visual desses excluídos da sociedade foi o ponto de partida da marca para criar esta coleção. Faixas soltas davam o ar de camisa de força e os chapéus redondos reforçavam a ideia de desmarginalizar a imagem dessas pessoas.


Reptilia:

A inspiração desse desfile vem da artista e escultora Maria Martins. A carioca, que morreu em 1974, abriu as portas para outras artistas surrealistas no Brasil, além de ser sido musa e amiga de grandes nomes da arte como Duchamp e Picasso. Essa história, infelizmente, não é vista nas roupas desfiladas — um problema enorme, já que as peças sozinhas não têm sentido e não contam uma narrativa por si só.

David Lee:

O estilista cearense David Lee estreia na passarela da Casa de Criadores com sua investigação sobre força, masculinidade, crochê e alfaiataria. Destaque da marca, o crochê é o elemento mais interessante de seu trabalho. Isso porque pegar um elemento antes associado exclusivamente a mulher e transformá-lo em uma peça de moda masculina fala muito sobre a masculinidade tóxica cultivada na sociedade hoje em dia. Os tons primários escolhidos para esses tricôs dão um ar lúdico, quase infantil, às peças, o que também agrega à conversa sobre masculinidade


Weider Silveiro:

A desfile de Weider Silveiro foi inspirado na Grécia e na coleção do estilista Anastácio Jr sobre o tema.

“Tentei dar meu olhar à uma estética que ele gostava e reinterpretar agora, em 2019”, explica o estilista no backstage. Silveiro usa dos plissados em calças, camisas e vestidos para emular os drapeados das estátuas gregas. Misturando essa referências ao streetwear, constrói calças e saias clochard jeans em looks monocromáticos. Esse mix entre uma moda de rua e outra mais elegante é o ponto alto dessa coleção.


Notequal:

Fábio Costa, o estilista da Not Equal, quis falar sobre energias. Para isso, buscou inspiração em dois tipos delas: a dos parangolés e a do Butoh, uma dança japonesa. O que elas têm em comum? Que a energia é gerada sempre a partir de um movimento. Nesta coleção, ele quis que o movimento fosse perceptível mesmo quando estático. Para dar essa impressão, usou moulage e uma alfaiataria retilínea, mas desconstruída.

Os vestidos-coluna ganham aplicações de dobraduras enquanto as blusas possuem drapeados. Os tecidos puídos, como malhas que são desgastadas até virarem redes finas, e o tressê de fitas que cria uma estampa geométrica contam também sobre essa ação do tempo nas peças e na vida. As estampas foram feitas em colaboração com o artista Luciano Ferreira, especialista em colagens, depois foram escaneadas e aplicadas em vestidos assimétricos e camisões masculinos.

Re-roupa:

Essa edição da Casa de Criadores foi marcada pela popularização do upcycling. Muitas das marcas estreantes levaram essa preocupação pelo meio ambiente e pelos desperdícios praticados pela indústria à passarela, ressignificando e customizando tecidos antigos e peças de brechó. É o caso da Re Roupa, que fez sua estreia com uma coleção que homenageia essa possibilidade dos trabalhos manuais. 

“Nós já tínhamos sido convidados para vários desfiles, mas pela primeira vez decidimos aceitar”, conta Gabriela Mazepa no backstage. Ela orquestrou a coleção unindo o trabalho feito nos laboratórios e oficinas que dá vida a fins de rolos de tecido e peças garimpadas. Recorta, recria e recostura moletons de patchwork, blusas transparentes, camisas assimétricas, calças larguinhas.

O desfile começa com peças mais românticas e depois fica mais urbano, com referências do streetwear.

Diego Fávaro:

A coleção de Diego conta a história da Data Limite de Chico Xavier, uma previsão sobre o aniversário de 50 anos em que o homem pisou na lua. A humanidade havia, portanto, cinquenta anos para não se envolver em uma guerra nuclear e, passando essa data, coisas extraordinárias começariam a acontecer.

O desfile brinca com texturas para contar uma história sobre o bruto da guerra e a leveza da cura. Os tecidos pesados e rígidos são combinados a texturas que acalentam. O brim que parece couro e a sarja com forro de moletinho exemplificam como essa dualidade, muitas vezes, trabalha juntas. Primeiro bate, depois acalma.



Rocio Canvas:

Quem conhece a marca sabe do histórico minimalista, alongado e fluído de suas peças e, nessa coleção Rócio Canvas utiliza pontos de cores.

O desfile começa com os looks monocromáticos, com novas técnicas de alfaiataria e moulage, experimentando com lenços que se tornam saias, cintos e tops. O tricô aparece em blusinhas transparentes e a única estampa da coleção é localizada em um vestido e em um top.

Boldstrap:

A Boldstrap estreia nessa edição com uma critica ao governo homofóbico, machista e racista atual. O objetivo é mostrar que todo mundo deve se amar, se aceitar e se orgulhar de quem é e de quem escolheu amar. Todos os corpos apareceram na passarela com as jockstraps de luxo que fizeram o sucesso da marca de Pedro Andrade: gordos, magros, baixos, altos, ursos, pocs, velhos, novos, com cicatrizes, acne, estrias. Pela primeira vez, a marca se arrisca em streetwear sensual para eles, com shortinhos, croppeds, bermudas de tela e calças de vinil.

Rober Dognani:

Nesta temporada, o estilista Rober Dognani resolveu prestar homenagem a Nossa Senhora de Aparecida, de quem é devoto desde criança, já que, ao ter um problema de visão curado por uma promessa feita por sua mãe, ele vai anualmente à Catedral de Aparecida agradecer.

Ano passado, ao ter um problema de saúde na família, dessa vez com seu pai, foi novamente a cidade agradecer e rezar e acabou por decidir criar essas roupas-homenagem. “Esse desfile é sobre minha fé, mas pode ser sobre a sua fé ou a de qualquer pessoa”, conta.
“Eu já falei sobre boates, estilistas, alta-costura… mas, para mim, o maior luxo de todos é ter fé”, diz o designer.


Pote:

Se a moda choca a ponto de calar a plateia, ela está fazendo seu papel. Foi isso que aconteceu durante o desfile da POTE, a parceria entre o rapper Novíssimo Edgar, o projeto Ponto Firme de Gustavo Silvestre e a Estamparia Social. Tanto o Ponto Firme quanto a Estamparia Social trabalham com presos ou egressos, os ensinando a bordar, costurar, fazer crochê e trabalhar com serigrafia.

A junção desses três nomes dá força a um movimento de desmarginalizar e reintegrar essas pessoas na sociedade, trazendo oportunidade de trabalho tanto dentro quanto fora das prisões.

A performance fala sobre ciclos, prisão e liberdade. A passarela foi montada na escadaria da Praça das Artes, de forma a democratizar esse desfile, abrindo ao público uma questão social urgente, o encarceramento em massa da população negra. Ao fim da escada, lia-se “64% da população presa é preta. Liberdade vai cantar”. Descendo os degraus calmamente, com o andar orgulhoso, os ex-presos desfilam as peças customizadas com retalhos, pontos de crochê, desenhos criados pelo próprio Edgar. As roupas, no entanto, não são as protagonistas.

O nome Pote vem do apelido das solitárias nas prisões. Esse desfile discorre sobre a vivência dentro do encarceramento, desde os casulos que eles constroem com panos dentro das celas para receber visitas íntimas até os riscos que contam os dias para, enfim, se verem livres.


 

Projeto Lab – Bispo dos Anjos:

O estilista da marca se inspira na moda que brinca com as expectativas da sociedade sobre a masculinidade. O desfile abre com um casaco arquitetônico de mangas redondas seguido de um look azul com estampa de onça, brincando com essa dualidade entre o pesado e o leve. A coleção inteira fala sobre as imposições e os preconceitos de um homem que gosta de usar vestido, decote e peças normalmente associadas ao feminino. Os vestidos aparecem como peça principal, não como ponto fora da curva.

 

Projeto Lab – Jal Vieira:

A estilista Jal Vieira contou a história emocionante de sua mãe, que saiu sozinha do sertão para tentar a vida no Sudeste. O tecido feito de cortiça com recortes e franjas apareceu em boleros, vestidos, calças e saias.


Projeto Lab – Rainha Nagô:

A marca Rainha Nagô é a primeira 100% plus size a estrear na Casa de Criadores. Falando sobre gordofobia e body positive, a coleção apresentou códigos que geralmente passam longe de roupas maiores: muita transparência, decotes, blusas de tela e silhuetas justas para homens e mulheres.


Projeto Lab – Koia:

A Koia foi uma grata surpresa nesta edição do Projeto Lab, já que mostrou uma moda madura, bem acabada, com ideias coesas e peças comerciais com um toque esquisito e interessante. Grande parte da coleção de TCC de Kaio Martins trouxe uma inspiração vitoriana, com mangas bufantes e golas de renda, além de plissados, cinturas bem altas, calças clochard e saias rodadas.


Vivão:

Inspirado no filme Blade Runner 2049, Alexandre Francisco, da Vivão Project, apresenta um futuro distópico, caótico, grotesco. Mas, na verdade, ela não é tão distante quanto parece. Essa nova “raça de humanos”, pensada pelo estilista baiano, é fabricada para fins escravocratas enquanto a sociedade preconceituosa exclui as minorias sociais, como os transsexuais e as pessoas não-binárias. 

O visual é estranho para quem está acostumado a seguir os padrões da sociedade, que exige que as mulheres odeiem seus corpos e suas sexualidades, que sejamos belas, recatadas e do lar. Que os homens sejam fortes, másculos, sem traços de feminilidade. Que as bichas não sejam afeminadas. A Vivão Project pega todas essas expectativas, joga no lixo e entrega uma coleção coesa com trilha sonora pesada para alguns, mas que embala perfeitamente esse futuro tão atual.


Estileras:

A marca Estileras é diferente de quase tudo que já foi visto no evento. Com o conceito de que o meio é tão importante quanto o fim, eles montaram o backstage na área pública da Casa de Criadores, na Praça das Artes, para que as pessoas acompanhassem seus processos. A performance começou meio dia com trinta pessoas silkando, pintando, recortando e customizando peças de brechó ao vivo. Toda a coleção foi feita do meio dia à hora do desfile, cerca de oito da noite.

No desfile, os modelos entraram todos juntos e fizeram um paredão onde só se via pelas frestas o que rolava no meio. Como se a marca não precisasse do aval do mundo muitas vezes preconceituoso da moda, mas para seus amigos, as pessoas da cena e quem realmente consegue entender o que isso tudo significa. As roupas feitas na hora atendem bem esse novo momento da moda que se reapropria do seu discurso e de sua estética para criar uma coisa nova, fresca e que conversa muito bem com seu público.



Rafael Caetano:

Há algumas temporadas, Rafael Caetano encontrou a fórmula do seu sucesso: peças para um público gay que gosta de brilhos, exagero e extravagância. Por conhecer bem (e fazer parte) dessa mesma turma, o estilista entende bem o que eles querem vestir. Os macacões, best-seller da marca, sempre aparecem na sua passarela, assim como as bombers coloridas e com paetês. A novidade dessa temporada fica para as parcas, os tons doces e a estampa tie-dye.

Nessa edição, Caetano quis falar sobre amor à primeira vista. No look final, o olhar da icônica drag Divine é aplicado em um maxicasaco colorido e amplo. Há também um tema cowboy aqui, com os bolsos contrastantes em camisas, franjas e chapéus.



Ken-gá:

A história de Afrodite, caminhoneira que transicionou aos 66 anos, foi o ponto de partida das estilistas Lívia Barros e Janaina Azevedo da Ken-gá. Antes Heraldo Oliveira Araújo, viajava as estradas do Brasil trocando as roupas femininas pelas masculinas ao chegar em seus destinos. Porém, agora aos 69 anos, ela desfila orgulhosamente para a marca na passarela da Casa de Criadores.

As estilistas ainda quiseram brincar com as frases de caminhão, sempre muito machistas, e estamparam “Deusa Fiel, Deusa é Amor” em algumas peças. Em sua versão mais conceitual, a Ken-gá apresenta vestidos, tops e saias feitas com as mesmas bolinhas de madeira dos assentos de caminhões.

Nós quisemos falar sobre as caminhoneiras e fazer um paralelo com a invisibilidade da mulher lésbica – que nós sentimentos na pele”, contam Livia e Janaína. “No caminhão, você pode ser a mulher que você quiser, você vê o futuro e encara o passado”. Dessa imagem de pôr-do-sol na estrada, foi emprestada a paleta de cores. Além dos elementos cowboy, elas quiserem imprimir toda a referência cafona e dramática a que foram expostas suas vidas inteiras. Os brincos, por exemplo, foram recortados de quadrinhos religiosos que se encontram em quase todas as casas do interior.



Vicente Perrotta:
  • “Como é o meu desfile de estreia na Casa de Criadores, resolvi fazer uma retrospectiva do meu trabalho. Vou mostrar exercícios e técnicas que tenho desenvolvido durante minha trajetória”, diz o estilista Vicente Perrotta, que desfilou no último dia do evento. O tema da coleção foi Travesti no Poder, que o estilista diz ser “um diálogo com as questões sobre o corpo transvestigenere e a criação do imaginário”. Travestis no mercado de trabalho, na fila do pão, na universidade, no poder, no Legislativo, na Medicina, onde ela quiser estar: assim termina a carta de apresentação da marca.



Brechó Replay


b

Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores

Sou de Algodão – Assumpta:

A marca de Gabriela Pfeifer, Daniel Mathias Leão e Eduardo Grella fez sua estréia na Casa de Criadores apresentando a c oleção “Em busca do corpo glorioso”, que tem como tema a ideia religiosa de “corpo perfeito, do nosso “Eu” idealizado, aquele que, após a morte, subiria aos céus.

Para desenvolver o tema nas peças criadas, os estilistas estudaram dez obras de arte barroca com temática espiritual e os fortes contrastes entre luz e sombra que marcam o estilo. O barroco é um estilo artístico sombrio e carregado de dramaticidade, mas que busca o sublime.

O motivo de escolha das dez obras é a vontade do grupo de discutir a influência das tradições na atualidade. É por isso que as peças resgatam elementos da alfaiataria e o uso de tecidos de algodão aliados a segundas-peles de malha e características esportivas de conforto e versatilidade.

A ideia, segundo os estilistas, é a de criar peças que pareçam substituir “a própria pele do portador” e sair do corpo com “um propósito puramente estético, como um adorno que representa este Eu idealizado.” O objetivo do grupo é criar uma coleção que busque uma “utilização totalmente inusitada de tecidos de algodão e que almeje trazer peças inteiramente conceituais para a passarela”.



Sou de Algodão - Ateliê Fomenta:

O desfile comandado por Fellipe Campos e Fernando Carvalho fala sobre uma época obscura da história brasileira, que é a ditadura militar.

Utilizaram algodão, pedaços de jornais e da constituição para fazer produzir as roupas. Na maquiagem utilizaram batons vermelhos por fora da foca, remetendo a censura e as drags queens (quais foram o motivo do estilista Felipe Campo ter entrado no mundo da moda).



Sou de Algodão -
Dario Mittmann:

O estilista Dario  fez uma imersão no universo do folclore japonês para criar peças de estética Harajuku, com macacões, casacos e conjuntinhos cheios de brilhos e aplicações, pichações, recortes. A coleção de streetwear inspirada na bad girl japonesa ainda foi complementada por uma beleza de ares extraterrestres.

O estilista escalou a performer Alma Negrot para fechar o desfile. Dario Mittmann ficou em segundo lugar no concurso.



Sou de Algodão - Era Brand:

A marca formada por Alan da Silva Dantas, Lays Santos e Patrick Langkammer levaram para a final do 1º Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores a coleção “Oxumarê”, que, na língua iorubá, significa “arco-íris”.

Segundo os estilistas, esse orixá “trata da dualidade de gênero e tem dentro de si tanto o feminino quanto o masculino”. Ele também é representado pela riqueza e pela imagem da serpente.

O grupo escolheu trabalhar com as cores do arco-íris em tons pastéis combinados com o dourado, para simbolizar a riqueza da entidade. Para representar o mito, a fé e a herança dos povos africanos, o bege e o preto são adicionados ao espectro de cores unidos a materiais como búzios, fios e contas, que funcionam como abotoamento e elementos do beneficiamento das peças. O tingimento manual e a aplicação de tecidos e bordados complementam o visual da coleção.

A modelagem de “Oxumarê” é ampla e aposta nos tecidos leves de algodão para trazer um design arrojado, mas que mantém seus conceitos criativos.


Sou de Algdão - Mateus Cardoso:

O estilista Mateus Cardoso traz a coleção “Retrato” para a final do 1º Desafio Sou de Algodão + Casa de Criadores, inspirada no universo dândi e na proposta do corpo como objeto artístico.

“Dândi”, do inglês  Dandy , é o termo designado a homens da passagem do século 19 para o 20 que prezavam uma estética refinada e buscavam o belo através da aparência. A perspectiva de Cardoso sobre esse personagem histórico reflete-se na intenção das peças produzidas. “Ser um dândi era se transformar em um ser perfeito. Inventar a si mesmo. Tornar-se corpo e arte”, afirma o estilista.

A escolha da alfaiataria como base dos looks da coleção remete àquele período histórico e ao cuidado na produção artesanal que transforma cada peça em algo com identidade única. A releitura acontece quando se combina o  slowfashion  da alfaiataria a um design contemporâneo para criar uma relação afetuosa entre peças, criador e consumidor, que proporciona um consumo consciente da moda.

O designer ganhou em 1º lugar o desafio.

Sou de Algodão - Rodrigo Evangelista:

O estilista Rodrigo Evangelista inspirou sua coleção no ambiente “Noite dos Leopardos”, uma festa famosa no Rio de Janeiro, a qual acabou no fim dos anos 90, devido ao aumento dos casos de HIV, e é vista até hoje como marco da cultura gay.

Ele contou uma história através de seu desfile. Com a cantora Ivana Wonder abrindo o show, Evangelista chamou pessoas soropositivas para trabalhar com ele. Com esse trabalho, a intenção do designer é trazer à tona assuntos que ainda permanecem tabus na nossa sociedade, como a liberdade sexual e a conscientização da nova geração que não vivenciou o auge das doenças sexualmente transmissíveis.

Rodrigo ficou em terceiro lugar no desafio.


DESFILE COMPLETO - CASA DE CRIADORES + SOU DE ALGODÃO


Fernando Cozendey:

O estilista Fernando Cozendey apresenta uma coleção de bodys, biquínis e peças coladas ao corpo feitas de Lycra, inspiradas no circo e nos palhaços. Porém, de um palhaço entristecido, e não divertido e engraçado.

Em um desfile inteirinho em preto e branco, com contraste de uma passarela de vinil vermelha, estampas como onças, listras e poás foram escolhidas para a cartela de cores da coleção.


 

Heloisa Faria

A estilista Heloisa Faria optou por criar uma coleção de amor, em tempos de ódios. Com o nome de “Novxs Românticos”, o desfile começou com um casal cruzando de mãos dadas na passarela, seguido de uma série de modelos de todo os perfis (brancos, asiáticos, velhos, baixos).

Decidida a falar sobre amor, escalou dois casais com mulheres transexuais, para completar o time e mostrar que todo tipo de amor é válido e nenhum merece ser apagado.

A vibe otimista como o lema “O que me move é LOVE”, pintado de maquiagem no rosto de algumas modelos, foi o jeito encontrado pela estilista de falar de tempos pesados de forma poética e com roupas com boas sacadas comerciais.



 


Silvério

O laço que prende é o mesmo laço que solta. Foi assim que Rafael Silvério começou explicando o conceito por trás de sua estreia na Casa de Criadores.  Esse laçarote é visto de várias formas dentro da coleção: apertado, desconstruído, frouxo. “É a desconstrução desse laço, mas também sua confirmação. A mulher não precisa gostar de laços, mas se ela quiser, tudo bem. Ao mesmo tempo que, nos meninos, isso significa que tudo bem ser feminino”, explica o estilista.

Há, sim, um link com o feminismo, já que Silvério também usou a planta Beladona como um de seus pontos de partido. No século 18, as mulheres que a usavam eram chamadas de demoníacas e bruxas e as putas a usavam para esfregar nos olhos e atrair mais homens. Na passarela, os modelos entraram com uma pulseira fluor verde, ora no pulso, ora no tornozelo, para simbolizar a intoxicação por Beladona, uma das mais tóxicas do Oriente.

Nas roupas, o estilista usa lã, material comumente associado à moda masculina, para criar vestidos rodados e femininos. 

Ainda na passarela, as modelos entravam com palavras como “sonsa”, “quenga” e “moderna” marcadas na pele, em uma técnica que simula a escarificação e representa o preconceito e o machismo que as mulheres sofrem todos os dias. 



Alex Kazuo

O estilista Ale Kazuo quis mostrar nas passarelas uma moda sem firulas. “A maioria dos estilistas pensa em um tema. O meu processo é mais intuitivo, eu sou costureiro. Comecei costurando assim. Por muito tempo trabalhei com outras marcas, então gosto de retomar esse exercício”, diz o designer, no backstage.

A história do estilista é bastante interessante: seus amigos o presenteavam com tecidos ou roupas antigas, ele as vestia e costurava onde achava certo. As técnicas de moulage, com modelagens novas a cada estação, são o fio condutor de todo o trabalho de Kazuo.





Issac Silva

O estilista Isaac Silva se inspirou na música Faraó Divindade do Egito - Olodum e decidiu prestar homenagem ao país, resgatando suas origens e colocando em homens e mulheres negras as roupas que representam sua cultura. “Esse embranquecimento acontece desde a época dos colonizadores, que chegaram ao Egito procurando múmias (para colecionar) e arrancaram as partes que identificavam sua identidade negra, como o nariz”, explica.

Nessa coleção, o estilista une os elementos da cultura egípcia e a afro-brasileira de forma que só. Detalhes como os búzios que enfeitavam as lapelas de essa união. As tranças coloridas é outro elemento que une essas duas culturas no que elas têm em comum: a raça.


 

EXCUSIVO - FASHION IN BRAZIL JÁ ANTECIPA A CDC 45.
Por Rogério Galvão e Ana Laura Seren 24/06/2019 - 16hs.

Nos dias 3 a 8 de julho, a Praça das Artes, localizada no centro de São Paulo, recebe a 45ª edição da Casa de Criadores.

O evento, dedicado a apresentar grandes talentos da moda autoral brasileira e também dar visibilidade às novas promessas, terá um line-up com 34 desfiles composto por várias marcas estreantes e nomes já consolidados, como Isaac Silva e Rober Dognani.

A final de um grande concurso que a Casa de Criadores está promovendo em parceria com o movimento Sou de Algodão , também irá acontecer nessa edição.

Seis estudantes de faculdades de moda de todo o Brasil são os finalistas, escolhidos entre mais de 400 inscritos.

Esses jovens talentos terão a oportunidade de desfilar para um corpo de jurados, composto por renomados profissionais da área, que escolherá o vencedor.

Além dos desfiles, o evento terá uma programação cultural aberta ao público, com talks, happenings, oficinas e shows, entre outras atividades.

O evento acontece em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e o secretário Alê Youssef se mostra satisfeito com a ação: “a Casa de Criadores mantém-se há mais de duas décadas como um celeiro de novos estilistas e artistas da moda. A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo apoia esta iniciativa e incorpora o evento ao Agendão, calendário cultural integrado do programa São Paulo Capital da Cultura.”

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